

Em Frontispício
“Eu vos compensarei pelos anos
que o gafanhoto comeu…’’
(Joel, 2: 25)
O Senhor prometera nos compensar os anos
que a legião dos gafanhotos devorara,
meu coração, mas a promessa era tão rara
que achei mais natural vê-Lo mudar de planos
que afinal ocupar-Se de assuntos tão mundanos.
Assombra-me, portanto, ver uma luz tão clara
fecundar-me as cantigas, coração meu — repara
como crescem espigas entre escombros humanos…
Naturalmente, quem sou eu para que Deus
cumprisse em minha vida promessa tão perfeita,
e no entanto ei-Lo arando, limpando os olhos meus,
fazendo-os ver que, no trigal em que se deita
a luz dourada e musical, se algo perdeu-se
foi como o grão — entre a seara e a colheita.
— Bruno Tolentino, A imitação do amanhecer, “Em Frontispício”
“E se deparamos essas paixões intensas, tão bem tratadas nas Horas de Katharina, na Balada do cárcere e na Imitação do amanhecer é porque o poeta, por assim dizer, povoou, como se um deus fosse, a cultura e o imaginário com personagens, com vozes que ele criou, tão diversas da sua própria voz.”
— Jessé de Almeida Primo
A poesia de Bruno Tolentino: da escultura das paixões

Livros do
aqui e agora
Contato
+55 51 9969-1388
contato@pessoaeditora.com.br
© Editora PESSÔA, 2026.